segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Disso dos professores...

A propósito disto (que a minha blogo-amiga xaxia só tem um defeito que é escrever pouco).

Eu também já fui professora do ensino básico e secundário. Já fui colocada a 300 km com 6 horas lectivas semanais e ~300€ ao fim do mês. Já tive de pagar para trabalhar. Já tive alunos que choraram porque eu os ia deixar. Já chorei por ter que deixar alunos. Já tive de domesticar 20 quase animais para os conseguir ter fechados numa sala, durante uma hora e meia e sem que se/me matassem, enquanto lhes tentava ensinar matemática. Já disse a um director de um escola: "Se amanhã esse aluno entrar por aqueles portões, não entro eu!" e "Quem eu precisava que falasse com eles era um guarda prisional e não um psicólogo". Já encostei pelo pescoço um rapazolas à parede por ter apalpado uma aluna minha e ainda hoje estou para perceber como é que não levei no focinho. Já me apeteceu levar alunos para casa, para cuidar deles, para terem uma oportunidade de sair da miséria em que viviam. Já conheci adolescentes sem um único adulto funcional a quem pudessem pedir ajuda. Já ouvi uma mãe dizer que não fazia ideia onde é que o filho de 15 anos ia arranjar dinheiro para as sapatilhas e telemóvel, que ela já não lhe dava um tostão ia para três anos. Já vi uma rapariga chamar puta à mãe numa reunião a quatro sobre mau comportamento e esta encolher os ombros. Já consegui com que protótipos de deliquentes sentissem algum interesse pelos números e se soubessem comportar - demorei dois períodos até eles confiarem em mim, no terceiro acabou o contrato e tive de me vir embora (no ano seguinte novo professor, novo ciclo). Já dei roupa às escondidas e paguei sandes. Já vomitei pela vida que sabia que os meus alunos levavam. Já dei explicações, muitas horas. Já tive três escolas num ano. Já fui colocada a centenas de km de casa, com dois dias para iniciar funções. Já vi colegas depressivos. Muitos!

Ser-se professor contratado neste país é ser-se missionário. É não se ser reconhecido. É não estar nunca em pleno. É o saber que se trabalha para o agora, que amanhã sabe-se lá quem estará naquele lugar.
Ser-se professor contratado neste país é uma merda. Mas uma merda tão grande que eu não percebo como é que tanta gente se sujeita. Décadas... Há gente que passa décadas sem fazer a mínima ideia aonde é que vai embarrar o pote no ano seguinte. E a essas pessoas é-lhes pedido que eduquem, que formem, que dêem o exemplo, que tenham a cabeça no sítio... Como será possível?? 

Eu? Eu desisti! Virei as costas e fui para outro lado. Não era aquela a minha missão. Não consigo estar a metade nas coisas e não dá para estar de corpo e alma no ensino. Não dá. Não nestas condições. Muitos tentam, mas quando é a sanidade mental que está no outro prato da balança não há como não se ser um pouco autista, um deixar andar, um logo se vê, um só não quero é chatices... E isto não é laxismo... É adaptação ao meio, é luta pela sobrevivência.

Eu? Tive a certeza que passariam décadas até que me deixassem fazer a diferença na vida de alguém, na mesma medida em que tinha a certeza que aquela não-missão estava a fazer muita diferença na minha vida. Desisti. Não era para mim.

Professores sem qualquer tipo de vínculo? Respeito... Tenho-vos muito respeito!

23 comentários:

  1. Obrigada!

    Beijinhos Marianos, NM! :)

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    1. Obrigada eu, Maria! A sério, do fundo do coração.

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  2. este relato é uma radiografia plena e tão real da situação, que podia muito bem servir de guia a quem quer ser professor nos dias que correm. eu sei do que aqui se fala. muito bem mesmo. boa noite.

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    1. Boa noite. Amanhã é outro dia, não é? E a carroça lá vai andando não é? E entre mortos e feridos alguém se vai safando, não é? Enfim... Juro que até tenho vontade de vomitar ao pensar nisto.

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  3. É incompreensível. Por mais que tente, não consigo perceber a razão de ser deste sistema...

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    1. É horrível. Uma pessoa passa uma ano inteiro a tentar fazer alguma coisa. Quando finalmente consegue, quando consegue arranjar uma plataforma de entendimento e funcionamento está na hora de ir embora. Outra vez!

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  4. Ontem ouvi uma notícia que mostra bem o desprezo com que a classe é brindada. A propósito das eventuais indemnizações aos professores que nestes dias se vêm obrigados a trocar de escola (arrenda casa ali, agora o concurso é anulado, arrenda casa ali - bem longe, por sinal), dizia um responsável: "Pois, a lei não permite fazer ajustes directos, portanto os professores terão de recorrer a outros meios...". Esperemos que os outros meios não sejam a via judicial, seria a "cereja - podre - no topo do bolo".

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    1. Sabes qual é o problema Mirone? É haver muitos professores e este ser um país terceiro mundista que olha para as pessoas como eu olho para os números. Ai não queres? Pois muito bem, isto é assim que funciona se queres muito bem, se não queres vai lá à tua vidinha que há muito quem queira. Porque é que os médicos não deixam formar muitos médicos? Pois... Lá está. enquanto são precisos são respeitados. Mete-me muito nojo isto...

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    1. Há muito incompetente é verdade... Mas à muita gente muito muito boa. Com uma entrega e amor à causa que não se vê em mais profissão nenhuma. E depois também é isso... Tanto dá ser bom como ser mau professor... O que conta para progredir na carreira é o tempo de serviço, a forma como se trabalha é irrelevante. Não pode ser.

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  6. Bom dia Nê :)
    Minha querida, adorei este post. A sério. Não tenho absolutamente nada a acrescentar excepto... CLAP CLAP CLAP!
    Honestamente, és a maior!

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    1. Oh então... Que é lá isso!! (Já ando em dieta pah! :D)

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  7. Ainda ontem li a entrevista de uma professora. Era do Norte, foi colocada em Santarém, arrendou casa e conseguiu matricular a filha. E agora deram-lhe a escolher V. Real de Sto António ou Portimão. É de partir aquela gente à murraça.

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    1. Agora imagina... Essa professora chega à escola (qualquer que seja) e tem o refugo do refugo à espera dela. as turmas que ninguém quer... Agora imagina a motivação, com a filha a reboque... É uma pessoa caramba, não é uma máquina.

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    2. Já para não falar da desgraçada da filha que sem culpa nenhuma anda de escola em escola, sem estabilidade nenhuma, todos os anos nova adaptação, tem que fazer novos amigos, deixar os amigos que já fez, bolas, é mesmo só à chapada esta gente...
      HS

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    3. A filha é duplamente vítima do sistema de educação deste país. Pesado, não é?

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  8. Tenho uma amiga, Professora de ensino especial. Todos os anos é este calvário. E o calvário nem é andar a passear pelo País, é quando consegue criar uma relação com o aluno, ela termina repentinamente. Todo o santo ano lectivo repete-se...
    A devida vénia a todos os Professores.

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    1. A questão é essa. Se já numa turma "normal" demora tempo os miúdos adpatarem-se aos métodos do professor e vice-versa, quando se trata de alunos "especiais" ainda é mais penoso... É estar sempre a recomeçar.

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  9. Eu, professora com vínculo (ou lá o que isso se possa chamar atualmente), aplaudo este texto de pé! Não é por ter uma vaga na escola, que me esqueço de quem palmilha o país, de lés-a-lés, andando com a casa às costas, carregando filhos, arrendando casas, deixando alunos, levando com os restos de alunos que ninguém quer (custa escrever isso, mas é verdade para muitos).
    Esta guerrilha de público/privado é só a melhor forma de dividir para reinar. Um pouco de respeito, precisa-se com urgência!

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    1. Também já dei aulas no privado e a pressão também é muita. A vantagem é que se fores boa profissional, isso é-te reconhecido e, no fundo, acabas por ter mais margem de manobra. Dependes mais de ti. E isso é bom. Para mim é bom, muito bom.
      Quanto aos professores contratados do público... É o que eu digo... É muito espírito de missão.

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  10. Este ano "tremi" como varas verdes quando soube que a professora do meu filho - que lá trabalha há 20 anos - podia ter que se ir embora para outra escola. A senhora é espetacular e extremamente competente. Ela ficou mas a colega dela no ano passado com 20 anos de serviço naquela escola foi-se para a outra ponta do país.
    Sinceramente não sei até que ponto há professores com um vínculo "a sério" - na prática - quando este tipo de coisas pode acontecer. Porque a outra senhora tinha um suposto vínculo e ninguém percebeu porque se foi embora.

    Este ano houve uma turma inteira que se mudou para uma outra escola só para poderem seguir a professora, os métodos de ensino e práticas educativas.
    Até os pais "incultos" percebem a importância de um bom professor, de um seguimento contínuo, de um trabalho e relação contínua... como raio não o sabe quem manda nisto? Revolta...

    Pior mesmo é esta parte: "Tanto dá ser bom como ser mau professor... O que conta para progredir na carreira é o tempo de serviço, a forma como se trabalha é irrelevante. Não pode ser." - eu já tive professores incompetentes, uma inclusivamente remetia-se a mexer no computador dela enquanto nos mandava ler o livro, nos testes deixava-nos ver as respostas nos livros e assim todos passaram e "ninguém" se queixou... mas ela trabalhava [ou melhor dizendo, estava colocada]. Não haveria nenhum bom professor, empenhado e competente no desemprego? Enquanto a senhora ia para lá contrariada e ainda tinha a lata de nos dizer isso abertamente ("não gosto de estar aqui", " em casa estava melhor", etc) ? Quantos casos destes temos nós? E qual a motivação para um professor dar o seu melhor e empenhar-se? Só mesmo por questões de personalidade e pessoais porque não há diferença entre ser um bom professor ou uma valente porcaria. No final são números, estatísticas num programa que não contempla nenhuma característica relevante sobre a forma como os professores praticam a sua profissão.

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    1. É mesmo isso (supostamente há uma avaliação de desempenho, mas na prática, aquilo é anedótico). É muito triste! Não sei até que ponta não deveriam ser todas as escolas a ter legitimidade para contratar. Primeiro conheciam-se, efectivamente, os horários e só depois é que se concorria...

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  11. Eu só não percebo porque colocam professores do Norte no Algarve e professores do Algarve no Norte, não podiam ficar pelo distrito da residência?

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